quarta-feira, 22 de agosto de 2012

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O que mais me custa? ter que voltar de férias, mais cedo, porque tenho trabalho para fazer e, depois de voltar, afinal não há mais trabalho para fazer. Isto tira-me do sério; mas já nem devia. Porque eu devia estar já, e há muito tempo, habituada à falta de atenção das pessoas. E eu que podia estar, ainda mais um dia (ou dois), alapada ao sol lá para os lados do meu querido Alentejo volto, feita louca, porque precisam de mim e, mesmo antes de sair de casa (hoje de manhã) , afinal telefonam e dizem: "ah, e tal, já não pode ser". Que têm muita pena mas, afinal, não dá jeito nenhum ser hoje. Se não dava jeito não estavam cá com coisas. Era trabalho e era importante; contudo eu não pedi nada a ninguém, certo? É que não há paciência. 

Ainda por cima senti (no bendito telefonema matinal)que havia ali marosca. Sei lá, pode ser só impressão minha; mas não me pareceu. Sabem quando "sentimos" que algo não bate certo? Que há ali algo, até na voz das pessoas, que soa a "estranho"? pois foi assim que eu fiquei: com a pulga atrás da orelha. Falou, falou; porém, não me convenceu! E eu, que já me tinha mentalizado para ir trabalhar em pleno agosto, que estava pronta para, hoje, ir dar o melhor de mim estou para aqui, com excesso de tempo e falta de ocupação, sem nada para fazer que é coisa que não gosto nem nunca gostei. E se, às vezes, até é bom ter tempo livre; todavia, hoje não! Hoje não é bom ter tempo livre. O tempo livre, em excesso, dá azo a pensamentos que não queremos (ou não devemos) ter. 

Este tempo em que ficamos quietos e parados a pensar "no ontem" ou, como se costuma dizer, "a pensar na morte da bezerra", este tempo, dizia eu, é inimigo da minha paz de espírito, desequilibra o meu, já de si muito desequilibrado, ecossistema mental.  Quando tenho tempo a mais, e coisas a menos para fazer, penso demais, analiso demais, alimento, até ao limite da demência (como diz alguém que eu conheço), as minhas dores e as minhas angústias e penso em coisas que já não devia pensar e que, nestas alturas, me vêem à memória só para me torturar. São histórias que deviam estar escondidas, porque me magoam e fazem mal, mas que acabo por ir buscar nestes dias em que me sobra o tempo e falta a ocupação. Vou buscá-las lá atrás, ao cantinho dos esquecidos, e não devia; porém, vou. E é inevitável, qualquer que seja a recordação que eu vá buscar, acabo sempre por pensar em ti;  mas, não devia eu sei! Nestes dias, quando o sol aperta e as noites ficam mais quentes, quando as tardes, que se sucedem umas a seguir às outras, correm mais devagar eu reconheço melhor a falta que me fazes. Reconheço-a melhor porque a analiso, lenta e demoradamente, ao pormenor, de um modo quase doentio, e porque me sobra tempo para pensar. 

Penso no que foi, no que devia ter sido, como e porque é que aconteceu assim... E por maior que seja o desespero, a saudade de outras pessoas, e a dor ou a mágoa que eu possa eventualmente sentir nenhuma ausência é mais funda do que a tua. E era a isto que eu me referia quando dizia, há pouco, que demasiado tempo livre não me faz nada, mas mesmo nada, bem. Demasiado tempo livre, aliás, leva-me a este estado de nostalgia, como se parasse no tempo ou, pior ainda, como se me levasse de regresso ao passado; e, no entanto, não devia. O que eu devia era estar a ter pensamentos bonitos e afastar estas saudades que me invadem, sem autorização, o pensamento. O que eu devia, isso sim, era ter continuado de férias!  O que eu devia era estar a apanhar sol, a nadar naquele mar sempre tão azul, a beber sangria e mojitos no bar da praia ao cair da tarde e a brincar com as minhas crianças e a vê-las, felizes por estarem contigo, a correr e a jogar à bola naquela praia que amo como a nenhuma outra.  Isto sim era isto que eu devia estar a fazer; mas, infelizmente, não me deixaram! 



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