segunda-feira, 4 de março de 2013

"Os professores", Valter Hugo Mãe. Dos melhores textos que li (post reeditado)


«Os professores

Valter Hugo Mãe



Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns professores como se fossem família ou amores proibidos. Tive uma professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de idade.

A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria de mundo em que o mundo se tem vindo a tornar.
Nunca tive exactamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afectivo do que efectivo na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didáctica, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os recebe.
Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesse crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo.
Houve um dia, numa aula de história do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga. Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes.
Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se tivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível.
Dá-me isto agora porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio povo. E porque me parece que perseguir e tomar os professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos. É como pedir que abdiquem de melhorar os nossos miúdos, que é pior do que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa todos os dias.
Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista para um colectivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de afecto.
As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se.»



P.S. Gosto deste texto pela visão que se tem do professor: "Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo (...)" e não tanto pelo lado político nem pela abordagem (demasiado dura, quanto a mim, mas isto são opiniões!) de que temos um governo (ou um país) que se odeia e que odeia o seu povo!

Respeito as opiniões mas não vejo as coisas do mesmo modo... no entanto, este texto não deixa de ser um belíssimo texto sobre os professores, sobre a sua dignidade (muitas vezes maltratada), pelo direito ao exercício da sua profissão em melhores condições do que as atuais. Não sou, neste momento, professora em nenhuma escola, sou Engenheira, tenho um Centro de Explicações onde lecciono matemática (e já leccionei química e física) mas isso não me impede de ver o modo como os professores têm sido tratados e as condições em que trabalham. 

No entanto, é preciso que se veja também que se muitos perderam o emprego ainda há muitos que conseguiram manter o seu posto de trabalho e, a esses, deve ser exigido que o respeitem, que cumpram os objetivos, que deixem as frustrações em casa e exercem a magnífica tarefa que é contribuir para o conhecimento, crescimento, educação, formação e evolução de alguém. 
Não podemos ir para a escola "descarregar" nos alunos a frustração que temos com o Ministro da Educação ou porque o salário nos foi cortado. Todos estamos a pagar esta crise (que não é só culpa do governo de agora... estamos todos a pagar uma fatura que vem também de erros antigos, de governações antigas... mas isto era outro tema!) o que importa reter aqui é que cada um que tem um emprego o deve honrar, respeitar, bem tratar e exercê-lo com competência, dignidade e Brio (essa palavra já tão perdida e esquecida)... não devemos entrar nas aulas de mal com a vida, desanimados, mas antes com força, motivados e motivadores porque aqueles que nos levaram a abraçar o ensino, a nossa fonte de motivação está ali, sentada nas cadeiras, à nossa frente, à espera de tudo de nós, do melhor de nós... eles que também pagam a crise (e não têm culpa nenhuma) estão ali e vão colher de nós o que lhes dermos, e vão inspirar-se naquilo que lhes fornecermos e vão ter como exemplo tudo o que lhes transmitirmos. 

Por isso, aos que ainda cá estão, resistentes, fortes, lutadores e que põem os alunos à frente das ideologias e à frente dos cortes obrigada. é sempre bom contar convosco para a educação dos nossos filhos... 







2 comentários:

  1. Gosto muito do Valter Hugo, muito mesmo. E concordo com o que se diz na maioria das coisas!

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  2. sim ... na maioria das coisas... mas depois há a minoria... estas também contam ;)

    beijinhos Mariposa mais Colorida de todas

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