terça-feira, 6 de agosto de 2013

Boa noite


Hoje fui deixar o filho mais velho à Colónia de Férias para onde já vai há 4 anos... e é sempre a mesma coisa: ele gosta de ir, eu gosto que ele vá, ele é bem tratado e cuidado e eu vivo 9 dias em angústia, saudades e medo. Medo de que não esteja a gostar, medo de que não se esteja a integrar, medo que não se esteja a divertir, medo que se magoe... eu sei lá. Basicamente invento medos novos e preocupações todos os dias. O que mais me custa é que nestes 9 dias eu não posso falar com ele nem ir vê-lo (são regras da colónia para não perturbar o seu funcionamento e o seu objectivo)   e só posso falar com a monitora dele (que conheci hoje e me pareceu tão querida e simpática).  

Esta decisão da Colónia tem a sua lógica porque depois há outros meninos que não recebem visitas nem telefonemas da família (até porque alguns não têm sequer família, estão em Instituições!) e seria muito triste para uns terem visitas e outros não. Apesar de ficar com o meu coração do tamanho de uma ervilha as razões pelas quais o incentivei a ir a 1º vez foi devido à estrutura da própria Colónia de Férias. Esta Colónia, movida pela solidariedade, é totalmente gratuita para muitas das crianças que ali estão (apenas se pede que levem alguns bens alimentares). Esta Colónia ajuda as mais carenciadas, as que vivem em Instituições, quer seja por não terem família quer seja por terem sido abandonadas pela família ou ainda por terem sido retiradas aos pais por maus tratos. Ou seja, nesta Colónia não estão só os meninos como o meu filho (que paga um valor simbólico e só pode ir se houver vagas que sobrem das outras crianças), nesta Colónia podem ir todas as crianças e todas são tratadas de igual modo.  

Por exemplo, nós sabemos que há crianças Institucionalizadas mas não sabemos quem são pois é salvaguardada a sua integridade e são totalmente integradas com as outras crianças. E foi este espírito (humano, solidário, justo, de amor incondicional às crianças), foi por saber que os monitores que ali estão são jovens universitários, que abdicaram de muitos fim-de-semana durante o ano para fazerem formação e se prepararem para receber os meninos que vão chegar no Verão àquela casa, onde são tão felizes durante 9 dias, e por saber que são todos voluntários e não ganham qualquer gratificação monetária (apenas têm direito à comida e à dormida), foi por saber tudo isto que o incentivei a ir a primeira vez e confirmou-se tudo o que eu esperava: foi bem cuidado, bem alimentado, veio feliz e radiante com muitas aventuras para contar e muitas músicas para me ensinar mas, acima de tudo, trazia um novo sentido de partilha e entendeu que há muitas realidades diferentes da sua.  

Aprendeu que havia meninos que ainda não tinham ido de férias (antes dos dias da Colónia), que para outros aquelas eram as únicas férias que iriam ter, conheceu meninos que NUNCA tinham visto o mar (apesar de morarem a 30 km da praia) e o que mais o impressionou foi que ali os meninos comiam tudo o que estava no prato e nunca se queixavam da comida. Foram estes (alguns) dos motivos que me levaram a deixá-lo ir de novo, a cada ano. E a verdade é que recebo (no final destes 9 dias) um filho renascido e mais crescido. Um filho que traz consigo mil aventuras, mil histórias novas e novos amigos e uma cumplicidade com os seus monitores que fica para todo o ano, nas mensagens que trocam e nos cartões de Natal que partilham uns com os outros. No final destes dias trago para casa um filho ainda mais maravilhoso, ainda mais doce e mais unido a nós.  E as saudades? Ai as saudades que ele traz de todos nós! E isso também é bom. Sentir saudades faz bem. Ensina-nos a falta que nos faz quem está todos os dias connosco. A primeira vez que nos separámos (há 4 anos) foi exatamente a primeira vez que nos separámos na vida. Nós nunca tínhamos estado sem ele 1 dia inteiro que fosse em 8 anos de vida. Imaginam como foi? Pela primeira vez entendeu e sentiu saudades. Mas saudades a sério, não aquelas saudades que se sentem no final de um dia na escola. E foi tão, mas tão bom o reencontro. O grito que deu quando nos viu... aquele: "Mãeeeeeeeee!!!!!" gritado e verdadeiramente sentido, o salto que deu para o nosso colo quando nos reencontrou, alicerçou os laços, intensificou-os e fê-lo sentir o quão grande (enorme) é o que nos une; fê-lo dar mais valor ao que tinha em casa, fê-lo valorizar cada brinquedo, cada livro, tudo. Porque na verdade só quando nos falta aquilo que temos todos os dias, só quando não temos aquilo que todos os dias está ali à mão e temos como garantido, é que damos valor.

Por isso quando ele volta eu noto que traz consigo um sentido de justiça maior e mais definido, que vem com uma maior e mais valiosa noção da aceitação das diferenças do próximo e muito mais tolerante e compreensivo, porque conviver com pessoas que são muito diferentes dos seus amigos, devido às vivências que têm, porque aprender a partilhar tudo, desde as bolachas ao shampôo e às tarefas diárias (arrumar a cama, a roupa e ter a camarata limpinha), não só emancipa como confere responsabilidade, cria laços e afinidades.  

Claro que eu escrevo isto tudo para me convencer que faço bem em deixá-lo ir, digo a mim mesma que ele está bem para aí 1000 vezes ao dia e estou aqui a dar uma de forte e cheia de blá, blá, blá mas ainda não contei que vou telefonar para a monitora dele  (à semelhança dos outros anos) TODOS OS DIAS!! para saber dele. 

Claro que também ainda não vos disse que farei dia sim dia não  (também à semelhança dos outros anos) 80 Km apenas para o poder espreitar de longe, sem que ele me veja (ele e os monitores, claro está!).

Ele sabe que eu vou lá vê-lo e sabe que fico de longe a vê-lo brincar apesar de ele não me ver (o ano passado viu-me uma vez mas disfarçou bem e ninguém percebeu nada!). Mas este ano combinei com ele uma outra coisa para ajudar nas saudades. Combinei com ele que sempre que fosse lá vê-lo de longe deixaria, num sítio combinado por nós e onde ele passa todos os dias, um sinal que só nós dois sabemos. Assim, sempre que vou deixo o meu sinal e ele recolhe-o e guarda-o. Assim guarda também um pouco de mim. Um pouco de nós. Da cumplicidade que temos e de que são feitos os nossos dias.

Espero que também este ano, e à semelhança dos outros anos, ele se divirta e interaja com os meninos da sua idade, vencendo um bocadinho a sua timidez e acanhamento inicial quando conhece gente nova. Este é outros dos motivos pelo qual, quando chega a esta altura eu o deixo ir: porque este convívio lhe proporciona conhecer novas pessoas, interagir com elas, vencer a timidez que às vezes lhe impede de dar o 1º passo e ganhar os "anticorpos", as ferramentas necessárias para o processo de socialização. Socialização essa que não se adquire em livros, nem em casa sentado em frente a um computador, à TV ou a jogar consola. Não tendo amigos nem primos aqui perto de casa para brincar, são todos de longe, não é saudável ficar as férias todas apenas connosco e com a irmã mais nova, quer seja em casa ou de férias. Tudo faz parte. Há tempo para estarmos juntos e é preciso haver um tempo para criar laços com os outros.  

Tanto eu como o pai temos férias desde o final das aulas (finais de Junho) até ao início das aulas (meados de Setembro), ou seja, temos quase 3 meses de férias para estarmos juntos. Temos dias que ficamos por casa (cada um nas suas rotinas), temos dias que vamos à praia, ao Jardim Zoológico, ver Exposições, museus e monumentos (verdadeiras aulas de História de Portugal ao vivo e a cores, para eles e para nós!), andam de patins, fazemos pic-nics e visitamos os avós. Todos os anos também descobrimos mais um cantinho de Portugal, vamos passar vários fins-de-semana fora (ao Norte, à Serra da Estrela...), lemos livros (que requisitamos na Biblioteca Municipal aqui na zona onde moramos)  e depois, em Setembro, para finalizar as férias em beleza, temos os nossos dias no Algarve, esse Sul que tanto adoramos, mesmo mesmo antes da escola começar, como se pudéssemos assim, prolongar o cheiro do verão e levá-lo para a escola connosco.

Por isso acho que sim, acho que fiz bem incentivar na 1º vez a sua ida para a Colónia, e acho que faço bem em deixá-lo ir, agora que é ele que me pede para voltar a cada ano. Se é fácil apesar destas vantagens e mais-valias todas deixá-lo ir? Não!! É difícil para mim e também é para ele que vive num misto de vontade de ir e vontade de ficar, que antes de ir já tem saudades mas que, ao mesmo tempo, sabe que vai adorar divertir-se com tantos jogos, piadas e momentos de partilha, absolutamente únicos e sabe também que, se optasse por não ir, lamentaria o ano inteiro não ter vivido tantas emoções... e eu sei que ele vive nestas indecisões durante duas semanas, avaliando os prós e os contras e ouvindo, tanto de mim como do pai, que seja o que for que decida fazer nós o apoiamos. Que não o empurramos para ir nem o convencemos a ficar. 

Nesses entretantos eu vou fazendo a mala e imaginando que era bom que no fim ela ficasse ali, no quarto, prontinha para desmanchar de novo sem que ele tivesse chegado a partir... mas depois afasto estes sentimentos egoístas e penso que o meu menino também precisa voar, também precisa correr e cair, gritar, conhecer. Que preciso deixá-lo ir e aprender a conviver pois só assim se vence a timidez e só assim se ganham estruturas para o mundo lá fora.  

Ele decidiu ir. Ele ganhou uma luta consigo mesmo. A vontade cómoda de querer ficar sossegado no seu cantinho, sem ter que enfrentar meninos novos e fazer amigos e conhecidos pela primeira vez, de novo; a vontade de recuar no último minuto perante o desafio que o obriga, muitas vezes, a ter que dar um passo em frente para começar um jogo ou uma conversa, foi vencida pela coragem e determinação de "vencer os meus receios"; foi vencida pela capacidade de adaptação que tem (maior do que imagina) a coisas novas, foi vencida pelo desejo de aventura, pelo desafio que representa para si ultrapassar-se nas suas pequenas (e tão normais para a idade) fragilidades.  

Ele decidiu ir. E eu tive um orgulho imenso nele.  

Ele decidiu ir. A mala estava pronta. Mas o meu coração não.









8 comentários:

  1. Bem, ler algo assim logo pela manhã,faz o meu coração ficar pequenino, pequenino, pois também eu vivo num misto de sentimentos em relação à emancipação crescente dos filhos, às inseguranças e dificuldade em se socializar do meu filho mais velho.Adorei o seu testemunho e essa vossa escolha tão nobre, faz-me acreditar que existem crianças muito afortunadas pois apesar de viverem institucionalizadas, encontram nas suas vidas pessoas que se preocupam, que são livres de preconceitos e ensinam os seus filhos a conviver, a respeitar e a partilhar com elas momentos únicos.Um beijinho.

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    1. eu sei linda Edien... quando escrevi este post também pensei em ti ... e nos teus posts... beijinhos

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  2. A nós custa-nos, mas para eles é tão bom...
    Beijinhos!

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  3. Muito bem! Custa-nos muito mas faz-lhes muito bem. As minhas filhas iam para as férias desportivas e era mais ou menos a mesma coisa. A mais velha aguentava-se melhor que a mais nova - esta foi só uma vez porque não aguentava - mas eu ficava com o coração apertadinho, apertadinho. Porque sou uma mimalha e sempre fui. E a minha mais nova é bem parecida comigo (infelizmente).

    Que corra tudo bem com o rapaz, uma vez mais. Beijinhos de mãe-galinha para mãe-galinha...

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    1. beijinhos minha mãe-galinha (e avó também...) um xi- coração grande para si de outra mimalha

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  4. Eu ainda não cheguei a essa fase. Mas que deve custar deve... :)

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    1. custa sim Mocha ... mas faz parte da vida deixá-los voar, não é? (mas coração de mãe sofre...)
      beijinh :)

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