sábado, 3 de agosto de 2013

Quando Vier a Primavera


Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto,  
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.  
A realidade não precisa de mim.  

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã,  
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.  
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?  
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;  
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.  
Por isso, se morrer agora, morro contente,  
Porque tudo é real e tudo está certo.  

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.  
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.  
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.  
O que for, quando for, é que será o que é.  

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 

Heterónimo de Fernando Pessoa



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