domingo, 26 de janeiro de 2014

Ainda o Meco



Vou comentar este assunto porque lido com imensos alunos, porque estou farta de ouvir as coisas mais absurdas, porque hoje vi um comentário no facebook de alguém que queria fazer um movimento para acabar com a praxe a nível nacional e porque, simplesmente, acho que devo. 

Eu ADOREI a minha praxe. Eu ADOREI o ESPÍRITO ACADÉMICO que vivi. Eu sou Engenheira, eu dou aulas privadas (explicações) de matemática há 20 anos e não vivi só para a escola e para as aulas. Acho que a vida não é nem pode ser só escola, só aulas e só momentos sérios. É fundamental para o equilíbrio saudável de cada estudante (de cada adulto se me permitem a ousadia) que se saibam divertir, que saibam e conheçam os seus limites (e ninguém conhece os seus até que sejam testados!). Fizeram-me imensas brincadeiras na praxe (joguei pingue-pongue com o nariz a empurrar uma bola com o nariz no chão) , comi sem talheres, de olhos vendados, cantei músicas improváveis e de letras impensáveis e depois? depois, depois tirei o meu curso, fiz amigos, tive momentos únicos de partilha e companheirismo, de cumplicidade, de alegria, fui a mesma Paula. Ou melhor, tornei-me uma Paula mais forte, mais solidária (sim, porque ser estudante académico também é saber dar e receber ajuda. Tive veteranos que fizeram directas para estudar comigo, que me apoiaram quando tinha saudades de casa e do colo da minha mãe. Fiz o mesmo depois, a muitos caloirinhos e caloirinhas). Estar na faculdade não é SÓ viver para o estudo. Aí nascem os adultos chatos, competitivos, sérios demais, aborrecidos... e o tipo de pessoas em quem nunca me hei-de tornar! ESTUDAR SIM! MAS VIVER TAMBÉM! ... NUNCA me senti humilhada com a praxe. NUNCA! E sabem porquê? porque esse sentimento é corrosivo. Esse sentimento vem de dentro para fora. Não são os outros que nos humilham, somos nós que nos deixamos humilhar. Quem tem carácter, personalidade forte, e sabe até onde pode ir ou deixa ir os outros, quem conhece os seus limites - os limites da sua integridade física e psicológica - sabe sempre quando é que uma praxe deve acabar e nunca se deixa humilhar. Ganha-se o respeito dos outros quando sabemos dizer: NÃO!

O que se passou no Meco não deve ser levado ao extremo, porque ao extremo levaram aqueles jovens essas atividades que, desculpem, mas nada têm de praxe académica. Parecem mais rituais de iniciação para pertencer a um grupo que as próprias vítimas queriam e desejavam pertencer. Eles sabiam os limites. Eles quiseram enfrentá-los. Eles foram de livre vontade e lamento, profundamente. Lamento que hoje se leve tudo ao extremo e tudo ao limite dos exageros.... lamento porque sou mãe e porque morreria se algo acontecesse aos meus filhos... mas não podemos ser fundamentalistas e ver tudo negro, porque ser contra alunos, praxes e contra anos de Bom Espírito Académico, pôr tudo no mesmo saco e dizer mal também é outra espécie de exagero. Há alunos que praxam e sabem praxar. Há alunos que são praxados e que se divertem e se integram e são felizes e acreditem: são responsáveis, tiram cursos e são excelentes profissionais nas suas áreas. Já sei que me querem perguntar se para brincar é preciso humilhar... volto a dizer que isso é uma questão interna de cada ser humano. Eu nunca me senti humilhada na praxe... é preciso saber estar, brincar, encaixar a piada e a brincadeira na situação certa e no contexto próprio. Eu fui praxada. Eu praxei. Eu trajei e acreditem tive muito orgulho de o fazer. Termino com: "Além de dinheiro, o que faz falta a este País é equilíbrio, é pesar o que se diz e o que se pensa, em vez de se fazer tempestades em todos os copos de água, porque nem todos os copos de água são iguais. E o que faz também falta são mentes abertas, e entenderem que os jovens não se resumem a uma cambada de delinquentes marginais sem limites e todos iguais. Se calhar o que falta mesmo às vezes É ESPÍRITO ACADÉMICO!" E eu acrescento: faz falta a muita gente saber RIR, MAS SABER RIR TAMBÉM DE NÓS MESMOS, DAS NOSSAS GAFFES, DAS NOSSAS QUEDAS, DAS NOSSAS LIMITAÇÕES (sim porque todos as temos)... numa época pautada pelos exageros, numa época em que o sucesso é desenfreado e a qualquer custo, numa época em que pisar o próximo para se subir é quase uma máxima de vida, numa altura em que os jovens deste país sofrem as maiores pressões e exigências, em que lutam tanto pelo seu lugar nesta sociedade, eu pergunto: "E ser feliz? E rir?" - acreditem que ser um bom profissional passará sempre mas sempre por ser um profissional que é feliz e que sabe rir ... até de si próprio!


E porque também leio posts assim... únicos.




4 comentários:

  1. eu tambem gostei muito da minha praxe e nuca fui obrigada ao quer que fosse. O ano de caloiro foi o melhor ano da minha vida academica e tenho bastantes saudades desse tempo.

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  2. Não sou anti-praxe até porque eu própria estudei Engenharia Quimica no Porto e participei na minha praxe, mas tomara eu ter mudado de curso e ter ido para a praxe da minha irmã (Engenharia Mecânica) essa sim valeu a pena! Desisti da minha por ser tão aborrecida e ter tão falta de criatividade. Mas ver a praxe da minha mana era uma diversão, um sonho, um conjunto de sentimentos inexplicáveis. Todos eram um só. Não havia medos, vergonhas ou tristezas. Havia sim cooperação, poder, companheirismo. E adorei ver isso na praxe de Mecânica... agora a minha? Foi enfadonha. E por esse mesmo motivo desisti. Mas sejamos honesto a praxe da Lusófona não é praxe... é como disseste um género de ritual, uma patetice. E é isso que os jovens de hoje em dia não entendem. Aquilo não é praxe, é tudo menos praxe. Praxe é diversão.

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  3. Estão a aproveitar a situação para diabolizar a praxe. Eu fui praxada e praxei. Não fui humilhada e não humilhei, aliás não me lembro de ver praxes humilhantes no meu curso. E caramba....se for a ver bem, não me lembro de encontrar na minha academia (Tomar), abusos, humilhações. Aliás, sempre vi cuidado com os caloiros.
    E mais, não me revejo no perfil psicológico que fazem de nós os que praxámos, e sempre estive rodeada de pessoas como eu....

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  4. Concordo tanto contigo. Eu também fui praxada e também praxei e fazia tudo novamente. O meu ano de caloira foi dos melhores que tive, senão o melhor, e o que consigo sentir em relação à praxe, é SAUDADES, daqueles tempos, das pessoas, das brincadeiras, do espírito académicos, dos momentos, que foram tantos e tão bons, de todas as pessoas que conheci e que estão para sempre em mim e me ajudaram a ser o que sou hoje, um ser humano melhor.
    Se acabarem com as praxes, estão a acabar com uma tradição de séculos e algo tão bom e tão bonito que é o espírito académico.

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