sexta-feira, 27 de março de 2015

desta busca diária




Desapegar custa muito... aprender a deixar ir, a largar velhos hábitos, a aprender a viver devagar e sem pressas e acima de tudo sem ter medo de ter medo custa e dá trabalho... Mas há dias em que o nosso corpo nos obriga a parar. Quando se cansa de nos enviar sinais e nós o ignoramos, quando manda todos os alertas possíveis e nós fingimos não o ouvir, ele obriga-nos a parar e a ouvir o que ele diz. "Precisamos de ti, inteira", dizes tu. "Precisamos mais de ti, do que os outros todos", dizem vocês estreitando esses braços que já foram pequeninos mas que agora têm crescido tanto ... 
Custa muito aprender a ouvir, a viver no presente sem viagens a um passado que dói ou sem pensar com ansiedade no futuro que ainda há-de vir...
É nestes dias em que preciso mais de ti, em que te procuro com o olhar, que tu chegas e me abraças do nada... sabendo tudo. Custa muito a saudade de quem não volta mas custa mais a ausência de quem estando perto é tão ausente ...
Tudo é impermanente, nada é nosso... a eternidade é apenas um tempo suspenso que não avança nem recua e que não raras vezes nos ilude quando por vezes esquecemos a nossa mortalidade e a nossa finitude... Às vezes preciso reparar mais em nós, dar tempo ao próprio tempo, celebrar o que de melhor tenho em cada dia valorizando a saúde, a liberdade, o amor, a própria vida, os filhos e os amigos e tantas coisas que somadas constroem o meu pequeno mundo dos afectos.
Todas as feridas, mesmo as mais profundas, um dia vão acabar por sarar ... todas as dores, mesmo as que moendo não me matam, vão acabar por se ir embora ... todos os golpes, mesmo os mais profundos, com o tempo só nos engrandecem e quando mais tarde olharmos para trás, para essas marcas que o tempo afinal não apagou, sentiremos uma espécie de orgulho... porque chegámos até aqui, porque aguentámos tudo, porque lutámos e conseguimos... porque estas marcas fazem de nós guerreiros ... e não é isso que sentem todos os guerreiros quando olham para as suas cicatrizes de guerra? Uma espécie de orgulho? uma gratidão tão grande por tantas coisas boas que uma vida inteira não chega para pagar? 
Sim, às vezes é preciso parar e cuidar de nós e ter tempo para pensar em nós... deixar o mundo lá fora ... recolher a nós ... O mundo lá fora??? o mundo lá fora pode esperar.







2 comentários:

  1. Sim, é preciso examinar a própria existência, de tempos em tempos.

    ResponderEliminar
  2. Adoro estes teus textos e identifico-me tanto com eles...

    ResponderEliminar