terça-feira, 30 de junho de 2015

da origem de tudo o resto


«Usando um traje branco exageradamente grande e um capacete de vidro, um astronauta flutua bem acima da Terra Azul. As suas mãos enluvadas manejam cuidadosamente ferramentas. Os seus pés, metidos em botas, estão atados ao braço robótico da estação espacial para que não corra o risco de ficar à deriva no espaço sideral. A linha que separa a vida de uma morte rápida e silenciosa é fina como papel. 

Duzentos quilómetros abaixo, um mergulhador explora um recife de coral em profundas águas azuis. Usa pés de pato de borracha, fato de neopreno e, na cabeça, uma máscara com um tubo de ar que o liga à garrafa de oxigénio que transporta às costas. Basta remover essa garrafa ou cortar o tubo para que o mergulhador tenha morte certa. 

A alguns quilómetros de distância, uma alpinista está agarrada à superfície nua de uma rocha. As suas mãos procuram as menores reentrâncias da pedra para se apoiar, enquanto os pés estão encaixados numa fenda abaixo dela. Sem os pregos de metal e as cordas que aguentam o seu peso, a alpinista cairia para a morte, ainda que a queda fosse apenas de dezenas de metros. 

Nós, humanos, não passamos de seres desajustados no meio ambiente da Terra. Mesmo em terra firme e seca, só sobrevivemos dentro de um modesto espectro de temperaturas. Acima ou abaixo dele morremos salvo com a ajuda de recursos tecnológicos. Apesar disso, graças ao poder da selecção natural e a muitos acasos, entre os milhares de milhões de outras espécies animais na história do planeta, tornamo-nos a espécie dominante. Desconhecemos a maior parte dessa história, mas aquilo que vislumbramos faz-nos crer que tudo começou quando um antropóide ficou em pé e andou.» 

R. Foyle, Humanos antes da Humanidade, 2001








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