terça-feira, 13 de outubro de 2015

EU MÃE



Durante semanas, meses, têm-me pedido o meu testemunho sobre este tema... Tenho-me esquivado. Nunca falei sobre o assunto publicamente e honestamente não gosto de o fazer. Mas os amigos e os alunos vão pedindo e acabei por aceder... Com autorização de meu filho, para todos vós... Fica aqui só um bocadinho do que é ter um filho com características especiais.

Como mãe sei que o meu filho olha o mundo através de lentes de aumento e por ser diferente da maioria, enfrenta dificuldades em se adaptar a um mundo que não foi feito para pessoas como ele. Sei que se aborrece face a tarefas rotineiras e que tem uma forte capacidade de abstração. Sei que tem uma preocupação e um interesse gigante pelos problemas do mundo e um elevado nível de energia... Sei que precisa ficar sozinho, talvez mais do que as outras crianças, para satisfazer os seus interesses pessoais e sei que como mãe preciso compreender e aceitar essa necessidade, desde que ela não se transforme num isolamento total.
Como mãe de um sobredotado (detesto este termo!) precisei aprender, desde muito cedo, a ser clara e direta com o meu filho, explicando-lhe que ele tem um talento especial mas que não é melhor nem pior do que os outros. Foi importante ressaltar que no grupo social onde se insere é a diversidade de talentos que traz a diversão e o desenvolvimento e que cada pessoa tem uma contribuição valiosa a dar aos outros. Que cada um tem o seu talento. E que todos os talentos são especiais.
Ao longo destes anos lutei sempre (e continuo a lutar) no sentido dele ter a certeza de que o compreendemos e de que poderá falar connosco quando quiser sobre as suas dificuldades. Dessa forma nós (a sua família, os seus amigos e professores) poderemos ajudá-lo a desenvolver uma boa autoestima e a apoiá-lo em todas as suas dúvidas e ansiedades. Leio imenso, estudo e informo-me sobre tudo. Procuro opiniões, falo com os professores do meu filho, com os diretores de turma e outras mães. Como mãe, e ao longo de 14 anos, tenho tentado estimular a convivência com outras crianças, encontrando atividades e grupos de interesses similares com os seus e que sejam capazes de desenvolver e compartilhar as mesmas ideias para que se sinta compreendido e apoiado. 

Além disso, nós os pais (todos os pais) precisamos acompanhar os nossos filhos na busca de materiais e informações que o ajudem a dar vazão à sua curiosidade. Se eles gostam de ciência ou história, por exemplo, nós deveremos ajudá-los a encontrar livros, sites e estudos interessantes sobre o assunto. No meu caso tento fornecer-lhe livros, revistas e outros recursos de leitura; exploramos coisas juntos, temos um passatempo que engloba toda a família - Geocaching - e que nos obriga a sair de casa, a explorar a vida ao ar livre e a partilharmos muitas aventuras. Caminhamos muito pelas ruas da nossa cidade e conversamos, vamos a novos lugares, aprendo coisas novas com ele, falo com ele sobre os meus sonhos e ele partilha comigo os dele, respondo e faço perguntas sobre temas que lhe interessam e acima de tudo, aceito-o como ele é; ele é uma pessoa e não o resultado de um teste; Acho muito importante ajudá-lo a aceitar-se tal como é e a reconhecer as suas limitações (porque todos nós as temos) e claro, também elogio e encorajo os seus pontos fortes.
E é este o melhor recado que, como mãe, posso dar a todos os outros pais: os nossos filhos são pessoas e não o resultado dos seus testes ou das suas notas. E há que fazê-los entender isto para que não sofram nem cresçam ansiosos ou frustrados.

Quando me perguntam "e como é o dia-a-dia com um filho assim?" - bom, é igual ao de todas as mães suponho: deixa roupa espalhada por todo o lado, sai sempre sem o casaco, esquece-se da mochila em casa váaaaarias vezes, refila quando não o deixo estar horas e horas no pc e claro, deve haver dias em que acha que a mãe é "uma seca" :D

De resto: 
deixo-o ser ele próprio
deixo-o ser uma criança
respondo às suas perguntas com paciência e bom humor
E acima de tudo mostro-lhe sempre que gosto dele por ele próprio e nunca pelo que faz ou pelas notas que tem.

“Tem sido fácil esta caminhada?”
Nem sempre. Houve momentos até bastante complicados. Primeiro foi o choque inicial quando nos apercebemos, que aos 4 anos sabia ler e escrever imensas palavras, que sabia somar e dividir (que é dos conceitos mais complexos para uma criança). Claro que eu e o pai nos assustámo-nos um bocado. Não fazíamos a mínima ideia nem do que fazer nem a quem recorrer e pedir ajuda e muito menos como seriam os próximos tempos. 
Mas para ele também não foi fácil. Passou, aliás, por momentos muito difíceis, momentos em que sofreu por incompreensão e intransigência, momentos em que sentiu que era "um incómodo" na sala de aula que frequentava... Houve anos em que tive que "me bater" para defender o seu direito à diferença e para que fosse aceite e respeitado na sua diferença (houve professores que me disseram que não sabiam o que fazer com alunos como ele e que preferiam não ter um aluno assim na sala).

Na altura doeu-me muito... Senti-me desapoiada e desamparada... Sozinha. Muitas pessoas diziam-me que devia ser muito “chato” ter um filho sobredotado chegando a dizer-me que "tinham pena de mim!" (Really?) Mas eu nunca pensei assim. Nunca lamentei. Nunca senti que o meu filho fosse um fardo. Muito pelo contrário. Tenho imenso orgulho nele. Tenho imenso orgulho na pessoa que é.
Sei bem que a minha vida é diferente, sei que em algumas situações tenho que ponderar bem e ajustar bem as coisas e as situações, sei que  me exige uma série de medidas e uma disponibilidade de tempo gigante (até porque ele não é o meu único filho!) e tenho ainda que gerir bem esta outra situação: cuidar que a minha filha seja feliz e nunca, mas nunca se sinta à sombra do irmão... Sei que não lhe posso dar respostas evasivas nem despachar assuntos porque ele quer aprofundá-los e discuti-los até à total satisfação da sua curiosidade. Não é fácil mas também não é difícil. É tudo uma questão de amor e entrega. E além disso acredito que se a vida me escolheu para mãe dele é porque sabia que eu daria conta do recado. :)

Também aprendi com ele a não guardar mágoas nem ressentimentos de todos quantos não lhe souberam abrir a porta nem o coração ou daqueles que, agarrados aos estereótipos, nunca souberam olhar para lá do óbvio e nunca se dignaram perder 5 minutos para falar com ele e conhecer o verdadeiro Miguel.
Claro que também nos cruzámos, ao longo dos anos, com professoras espetaculares (a professora Tânia, a professora Rosa e a nossa querida professora Maria do Carmo, falecida recentemente, a quem devo tanto...) e que terão sempre um lugar especial nos nossos corações. Sei e compreendo que provavelmente nenhum agrupamento tem um psicólogo que tenha formação em sobredotação. Sei que não há professores especializados, nem professores das áreas científicas - da matemática, das artes, das expressões - com formação nesta área, mas também sei que desde que entrou para o Centro de Estudos de Fátima (CEF) tudo tem sido muito mais fácil na nossa vida. 
Entrou com 8 anos no 5º ano e foi sempre apoiado, compreendido e bem cuidado. Tem tido os melhores professores e diretores de turma e em pouco tempo foram passando de professores a amigos! Nunca fui uma mãe "obcecada" com as notas (ao contrário daquilo que muitas pessoas possam pensar e dizer), nunca fui mãe de andar a "pedinchar" atenção ou tratamentos especiais para nenhum dos meus filhos, nunca "aborreci" um único professor do meu filho com relatórios de psicólogos e nunca pedi nada além daquilo que a escola lhe pode dar, porque sei que lhe dão - e deram sempre - todo o apoio que podem dar, sei que se preocupam com ele e que tentam, acima de tudo, compreendê-lo e fazê-lo sentir-se integrado e feliz. E ele é. Muito. Mas muito feliz. Adora os seus amigos. É preguiçoso e "viciado" em livros, jogos de telemóvel e computador (como tantos outros adolescentes), é persistente na resolução das tarefas que lhe interessam, impaciente e tem uma imaginação tão grande e é tão distraído e aéreo, que para o ir buscar "à lua" também eu tive que aprender a voar.

:D :D 








2 comentários:

  1. Deve ser complicado para ele mas com uma mãe assim irá ultrapassar todas as dificuldades.

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  2. Não fazia ideia e imagino que não seja fácil lidar com as outras pessoas, pelo preconceito e pelo estereótipo que associam logo. Admiro a tua coragem para lidares com a situação, acredito que seja preciso ter muito estofo para lidar com certas pessoas, bocas, mexericos e afins. Tens um filho muito inteligente, feliz e saudável, isso é que importa :)

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