segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

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Sempre fui desapegada dos bens materiais. A minha relação com o dinheiro é (e será sempre) estranha ... embora haja uma tendência para achar que todas as mulheres adoooooram ir às compras a verdade é que, até aí, a minha relação com as "últimas tendências" é desapegada e de pouca relevância. Compro roupa porque (e quando) preciso dela. Não encho armários, compro apenas o necessário, o que me faz falta e raramente tenho paciência para o "veste-e-despe" que antecede cada compra ... Às vezes há ali um lado meu que se apaixona perdidamente por qualquer coisa mas, ainda assim, muito raramente. Tenho piorado (ou melhorado, depende do ponto de vista) com a idade. Cada vez sou mais desprendida e minimalista. De vez em quando passa qualquer coisa por mim e é verem-me a destralhar (adoro esta palavra) gavetas, armários, cantos e recantos da minha casa. Cada vez mais pratico o desapego (de coisas e pessoas que não me fazem falta) e não carrego comigo nada nem ninguém que não seja essencial à minha vida. Para mim viver é como uma longa viagem que fazemos a pé e de mochila às costas. Cada coisa que colocar a mais na mochila, cada coisa que carregar comigo e que não me faça verdadeiramente falta só vai dificultar-me o caminho e a travessia. O que valorizo então? as pessoas que acrescentam alegria aos meus dias. as pessoas felizes, de bem com a vida e de cabeça arejada. o que aprendo e ensino. Os livros que leio e compro (sim. é este o meu exagero: os livros - muitos - que compro. todas as semanas; sou feliz com muitos livros por perto; adoro bibliotecas; adoro a Fnac e trago sempre um ou dois livros na mala) e depois valorizo e sou muito muito feliz em todas as viagens que faço. Viajar para mim é (nas palavras de J.L.Peixoto) a certeza de estar viva, um ato de entrega e transformação; viajar é crescer por dentro e ter a certeza de que, em cada viagem que fazemos, voltamos sempre mais ricos, mudados, acrescentados, diferentes. De cada viagem volto sempre mais livre, mais minimalista, mais desprendida, mais desapegada e a dar valor a cada dia e a cada nascer do sol. É isto que quero dar e deixar aos meus filhos: as viagens que fazemos; os momentos que passamos juntos e todas as partilhas que só quem é companheiro de estrada entende.  

*(acerca deste texto maravilhoso)


"Aquilo que quero deixar aos meus filhos são viagens. Como outros acumulam imobiliário e bens, quero que sejamos capazes de acumular momentos e lugares onde estivemos vivos e juntos. Essa será a fortuna que partilharemos. Quando falo de viajar, refiro-me a esse prazer de olhar em volta e saber que estamos ali, sentirmo-nos. Mais do que uma promessa, viajar é a certeza de estar vivo. Por isso, aquilo que desejo aos meus filhos é cidades e pessoas, montanhas e horizonte, desejo-lhes Nova Iorque e a Amazónia, desejo-lhes São Petersburgo e o entardecer lento da savana africana, desejo-lhes sorrisos da Tailândia e sake de Quioto.
Ao mesmo tempo, desejo que nunca percam a capacidade de ir ali ao fundo e, da mesma maneira, surpreenderem-se com o que lá está, com a luz e a temperatura ligeiramente diferentes. Desejo que se apaixonem sempre, por tudo. E que sejam capazes de passar essa eletricidade aos seus filhos, meus netos por nascer, porque é ela que dá ânimo e sentido: combustível e estrutura da vida. Aquilo que desejo aos meus filhos é que a variedade de opções que o mundo lhes oferece nunca deixe de deslumbrá-los."




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