terça-feira, 25 de outubro de 2016

este texto, que saiu no exame de português, é absolutamente extraordinário

"É possível (e até bastante provável) que o nosso tempo se caracterize por um esvaziamento do significado das palavras ou, no mínimo, do seu impacto. Como se todos os limites da linguagem tivessem há muito sido transpostos, comprimindo as margens de uma transgressão em tempos celebrada (e ocasionalmente praticada) por vanguardas estéticas e artistas malditos; e como se, num domínio simbólico crescentemente dominado por regimes de imagem cada vez mais acelerados e potentes, pouco espaço sobrasse para a desmedida ambição que certas palavras transportam. É certo que o amortecimento desse impacto não equivale a uma rarefação, pois é notório que as palavras se multiplicaram e estão agora em todo o lado, digitais ou analógicas, impressas, «pixelizadas», projetadas à nossa volta, preenchendo e saturando de significados o nosso quotidiano, sorrindo-nos, persuadindo-nos, seduzindo-nos com promessas ou governando‑nos com imperativos. Simplesmente (e há muito pouco de simples nisto), as palavras servem agora sobretudo de complemento e suporte de imagens, quando não as integram, tornando-se elas próprias um elemento gráfico. É, por isso, inteiramente lícito que nos interroguemos sobre a relação possível entre o esvaziamento das palavras e a sua subordinação à hegemonia das imagens, das quais se diz agora valerem, cada uma delas, mais do que mil palavras, num câmbio tão duvidoso quanto sugestivo. Este esvaziamento das palavras é particularmente relevante quando nos debruçamos sobre a coisa-manifesto, essa espécie de cometa feito de palavras e lançado em direção ao planeta Terra a uma velocidade vertiginosa e imparável. Porque é feito de palavras, o manifesto deve (tem de) contar com a sua solidez e acutilância, pois só com as palavras certas se torna possível rasgar o manto de conformismo, tédio, banalidade, injustiça ou infâmia contra o qual se dirige. As palavras e a sua capacidade de detonação e perfuração são a pólvora sem a qual o manifesto seria incapaz de se lançar à conquista do mundo, a artilharia necessária para derrubar a grande muralha da China que perante ele se ergue, ameaçadoramente estável e indestrutível, protegendo o Império do Meio dos seus bárbaros vizinhos. Certas palavras, é sabido, são capazes das mais ousadas proezas, podem ferir e doer, tornam-se imprevisíveis e indomáveis assim que abandonam a lâmpada mágica onde se encontravam abrigadas. Pense-se em termos como «honra», «fé», «verdade», «razão», «liberdade», «progresso» ou «revolução», para mencionar apenas alguns dos mais óbvios, e siga-se o respetivo percurso histórico: quantas vidas foram capazes de determinar e moldar com o seu misterioso poder encantatório, quantas batalhas, disputas, intrigas, escolhas e mudanças operaram ao longo dos tempos. A banalização das palavras surge como algo novo e sem precedentes, um estado de coisas cujo alcance estamos longe de aferir, ainda que o seu impacto se apresente inegável."

www.teatromariamatos.pt (adaptado) (consultado em 23 de janeiro de 2012)

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