segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Eu fui ao ACANAC e sobrevivi às sandes de atum (e a outras coisas mais…)

Recentemente o nosso país foi palco do maior acampamento nacional - o ACANAC que reuniu quase 22 000 escuteiros.
Porque considero o Escutismo um pilar fundamental para a auto-educação da cidadania responsável e participada pensei ser relevante ter no nosso CADERNO DIÁRIO o testemunho de um escuteiro que tenha estado presente neste acampamento.

Fiz o convite a um escuteiro e ele, depois de ter pensado bem sobre o meu convite, aceitou e decidiu escrever e dar-nos o seu contributo e a sua visão sobre o modo como viveu estes dias e a importância deste ACANAC na sua vida de escuteiro.
Chama-se António Miguel Braçais C. ,tem 15 anos, é pioneiro do Agrupamento 1167, Arrabal e é meu filho

Eu fui ao ACANAC e sobrevivi às sandes de atum (e a outras coisas mais…) 
"Para quem não sabe o que é o ACANAC este é o Acampamento Nacional de Escuteiros, que ocorre na Idanha-a-Nova, no verão, de 4 em 4 anos. Este acampamento, que acaba por juntar também escuteiros de outros países, teve a sua 1ª edição em 1926  realizou-se em Aljubarrota e durou 9 dias!! 

O ACANAC deste ano foi o 23º e mobilizou escuteiros de Portugal e de mais 9 países, nomeadamente a Nigéria e Israel, teve como lema o “Abraça o Futuro” e procurou alertar e ativar as nossas consciências para a defesa da “casa comum”. A sua finalidade é aquilo que move todo o movimento escutista “deixar o mundo um pouco melhor” do que aquilo que encontrámos. 

Depois de voltar do ACANAC e de ter colocado o sono em dia, de matar saudades da minha família (e da comida da minha mãe, algo fundamental para mim e para a minha sobrevivência ), foi inevitável fazer um balanço destes dias e refletir sobre esta mega atividade.

Tal como outros escuteiros com quem falei uns dias antes de partir também eu levava grandes expetativas relativamente a este acampamento. Em parte, por tudo o que já ouvira e lera sobre os anteriores e, por outro lado, pelo clima que se ia vivendo durante os preparativos tanto no meu Agrupamento como em casa. No entanto tenho que confessar que por muitas expetativas que levasse e por muito que achasse que ia viver uma grande semana, nada me preparou para o que vivi e, as expetativas, foram totalmente superadas e ultrapassadas. Foi muito melhor e maior do que aquilo que eu podia imaginar. Claro que não foi tudo bom, mas mesmo os momentos mais complicados e difíceis de gerir acabaram por ser positivos pois ensinaram-me muito. De facto, viver 7 dias em comunidade, sujeitos a condições tão adversas como o calor, o sono, pó por todo o lado, a falta da nossa família e das nossas coisas e o cansaço físico que se ia acumulando ao longo dos dias, acaba por se tornar numa verdadeira escola pelo muito que nos ensina e também pelo modo como testa os nossos limites. É preciso ter calma muitas vezes e respirar fundo outras tantas de modo a evitar que o cansaço acumulado interfira nos nossos julgamentos e nas nossas atitudes, tarefa essa nada, mas nada fácil. Continuo a achar que é a tolerância para com o nosso semelhante que é a chave para vivermos bem não só em comunidade como, obviamente, em sociedade.
A minha mãe contou-me que há mais de 40 anos que nenhum presidente da República vinha a um acampamento nosso e logo este ano tivemos a presença do Prof Marcelo Rebelo de Sousa o que acaba por ser uma grande (e justa) homenagem ao escutismo católico em Portugal e a prova de que o nosso movimento tem muita força e um grande valor: já somos perto de 72000 escuteiros em Portugal (e mais de 30 milhões de espalhados pelo mundo inteiro). E porque este ACANAC foi feito de momentos inovadores, soube também antes de partir para o acampamento que aqui o nosso Santuário de Fátima ia enviar (pela primeira vez) a imagem peregrina da Nossa Senhora ao nosso campo e que esta ia ficar permanentemente na nova capela do CNAE. E estes foram apenas alguns momentos que, pelo seu simbolismo, marcaram de forma única este ACANAC e o tornaram logo à partida tão diferente dos anteriores. Se juntarmos a isto o facto de este ter sido o maior acampamento nacional (até agora) por ter conseguido juntar em campo 21 500 escuteiros, trazido por cerca de 400 autocarros e distribuídos por mais de 4000 tendas, num campo com 2 restaurantes, 2 supermercados e uma arena com capacidade para 25 000 pessoas, então já da para termos alguma noção do valor deste ACANAC 2017. 
Ao longo de 7 dias fizemos raides, atividades náuticas, workshops e desportos radicais, cimentámos a nossa formação e trabalhámos juntos pela mesma causa e em torno do mesmo ideal. Ao longo da semana vi entreajuda, vi partilha e vi muita cumplicidade. Surpreendi-me com muitas pessoas, estive em comunidade com um grupo fantástico e cuja amizade quero fortalecer e guardar para sempre. Pelo campo vi construções impressionantes, troquei ideias e vivências e vivi realidades muito diferentes da minha. Foram dias onde todos aprendemos um pouco mais, onde crescemos como pessoas e como escuteiros e tentámos sempre dar o melhor de nós. À noite, quando nos juntávamos na Arena, o que mais me impressionava era olhar para aquela multidão e pensar: “Wow ...Somos tantos!! E eu estou aqui também e faço parte disto tudo!!”. Acho que nem consigo colocar em palavras o que se sente naquele momento quando olhamos à nossa volta e vimos quase 22 000 pessoas a cantar o Hino do ACANAC, a agitar os lenços, a gritar e a viver o mesmo ideal e a fazer parte de algo assim tão grande. Como na última noite, quando dissemos adeus ao campo e aos amigos que fizemos, ao som dos D.A.M.A.: toda aquela energia e toda aquela alegria que ali se viveu é-me impossível de explicar e quantificar. 
Para mim, a maior lição deste acampamento e talvez a mais importante que tirei foi o facto de perceber que todos os caminhos e todos os trilhos que percorremos são muito mais do que apenas esgotamento físico. Caminhar pode trazer-nos dores, cansaço e até vontade de desistir, mas é esse caminho também que nos põe à prova, que testa a nossa força e a nossa resistência e que nos ensina a continuar sem desistir. Ao longo dos raides, aprendemos que em comunidade não podemos agir como se fôssemos “muitos” - tipo cada um por si, mas que temos que agir como se fôssemos “um só” e que cada um de nós é um braço e uma perna importante na sua equipa, que não há ninguém mais nem melhor, que não há ninguém que não faça falta. Todos temos o nosso lugar e todos temos qualidades e defeitos e, por isso, temos que nos apoiar, compreender e ajudar. A nossa equipa é a nossa família e é com ela que podemos contar. A nossa equipa é feita de todos aqueles que estão lá para nós, que nos sabem dar a mão, que nos aceitam como somos, sem críticas e nos ajudam a seguir em frente no nosso caminho. E deste acampamento guardo a ideia de que o nosso caminho não termina no fim de um raid, mas continua para lá dele; porque as marcas físicas podem apagar-se com o tempo, mas um raid deixará sempre outras marcas que lhe sobrevivem e que nunca sairão de nós: a força para lutarmos pelo que queremos, a resistência que criamos para não desistir dos nossos objetivos, o apoio e a ajuda da nossa equipa e a amizade que criamos nos momentos mais difíceis. Estas são as marcas que moldam a nossa personalidade e as nossas vivências enquanto escuteiros e enquanto pessoas e que nunca se apagam. Nem no fim de um loooooongo raid. 
O Chefe Manuel Augusto, Chefe do Acampamento do ACANAC, disse que viver uma experiência como esta deixava marcas profundas em nós e que nos levava a querer ficar mais tempo nos escuteiros e, depois deste ACANAC, só posso dizer que ele tem muita, mas muita razão.
À minha família, aos meus Chefes, à minha equipa e à minha comunidade neste ACANAC 2017, OBRIGADO por terem contribuído para uma das melhores semanas da minha vida. 



António Miguel Braçais C."





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